Eu quis escrever algo planejado. Abri o Word, pensei em um título, escrevi e deletei umas 5 vezes o subtítulo. Parei. Não é o momento certo para textos bem estruturados. Estou cansada, desanimada e sinto que simplesmente escrever pode me ajudar um pouco, ainda que meus dedos doam em função de uma possível tendinite.
A semana foi dolorida. Meu aniversário na quarta-feira não foi muito comemorado. Nem poderia…são poucos os amigos por perto. Falar com os pais na Internet e receber alguns recados no msn, celular e orkut foram bons presentes. Um amigo me levou para almoçar e me deu flores – atitude inesperada, encantadora até, mas você sabe, não é como torta de morango com nata (coisa de alemão!) depois do churrasco na presença daqueles que amamos.
Lembrei de um texto que o Leandro escreveu há algum tempo atrás. Será que vale a pena? Dia sim, dia não, bate uma dúvida. Acho que alguns se divertem mais com essa cruel instabilidade. Não eu. Acho que é tempo de rever valores e priorizar. O que é, de fato, importante para mim?
Sinceramente, não é a casa. A casa dos meus pais é enorme, confortável, é do “meu jeito”, porque nasci lá. Amo aquele lugar, mas não é o que me faz falta. Já morei num quarto com mais 2 meninas, cerca de 16 metros quadrados. Sem guarda-roupa, dois beliches, e não me importei. Depois de 1 ano nesse lugar, progredi e fui morar numa casa enorme, com 5 quartos e…17 meninas! Bagunça o tempo todo, diversão, mas nenhuma privacidade. Se era infeliz? Nenhum pouco. Lembro com carinho do cheiro de pão queimado todas as manhãs. Um ano depois, fui morar com família de pastores – um pouco na casa de um, um pouco na casa de outro. A sensação de estar incomodando é sempre presente, mas tinha todo o conforto e carinho deles. Mais alguns meses, meu próprio apartamento! Morei quase 1 ano sozinha, num apartamento só meu, ao lado do meu emprego, bem localizado, cuidadosamente decorado (com pouquíssimos móveis e armários improvisados) e me diverti um pouco. Já morei em uma mansão, com Home Teather, Spa Pool e Piscina (sem nunca utilizar qualquer um deles – desinteresse todo meu). Agora, moro em um Backpacker, divido quarto com gente de todos os lugares do mundo, uso o mesmo banheiro que os outros, novamente não tenho guarda-roupa e, do fundo do coração, não é isso que me incomoda.
Sinceramente, também não é o lugar. Obviamente, hoje moro em um país lindíssimo, com paisagens que eu nunca tinha visto antes e isso é encantador. Mas já morei em cidade pequena, média, grande, Brasil e exterior. E não é essa a grande diferença. Me divirto aqui, aprendo muito, adoro tomar um café no Starbucks, ler revistas na livraria sem precisar comprar, ver os kiwis comendo de um jeito esquisito e nojento, mas assim como tenho muito para conhecer aqui, tenho uma imensidão de lugares para conhecer no Brasil.
A profissão também não é a questão. Trabalhei como Relaçòes Públicas, professora de crianças no jardim de infância, fui pra roça, agora sou garçonete. É importante se divertir, tirar o máximo de aprendizado em cada lugar, mas não é o mais importante. Trabalhar é importante, posição entretanto é algo estabelecido pelo homem. Você faz o que gosta ou faz o que lhe dá mais dinheiro? Você se diverte trabalhando ou só está lá porque lhe proporciona um status social? Você realmente sabe fazer o que está fazendo ou o mundo ganharia mais se você deixasse esse lugar para outra pessoa? Faça apenas o que você sabe e aquilo que tem certeza de fazer melhor do que os outros.
Também não são as coisas que possuo. Em Belo Horizonte comprei muita roupa. Em São José dos Campos, mais ainda. Além de roupas, móveis, coisas para casa. Sabe onde estão? Por aí…alguns eu vendi, outros eu dei. Pouco me importa. As roupas? Se não encolheram, estão em alguma gaveta na casa de meus pais. Hoje vivo com apenas uma mala de roupas e não é isso que me faz ser mais ou menos feliz. Já sonhei em vestir Gregory, usar perfumes importados, renovar o guarda-roupa em cada estação. Toda mulher se interessa por roupa, umas com roupas sociais, outra com tênis e calça de ginástica. Mas comprar é algo que anima qualquer mulher. Se eu ainda gosto? Certamente. Se sinto falta? Toda vez que vou às lojas. Mas não faz diferença, não muda minha vida, não anima o dia. Não sou o que visto.
Depois de tudo isso, duas coisas que realmente importam. Primeiro, o por quê de tudo isso. Segundo, quem caminha comigo.
Por mais vago que possa parecer inúmeras vezes, sei que isso tudo é vontade de Deus. Não vontade permissiva, mas vontade desejada. Me coloquei em suas mãos, por que então insistiria em pensar que, de repente, ele me jogou fora? Me fez promessas de que nunca me deixaria, jamais me abandonaria. Isso tudo, é por ele. Para ele. Se dói? Ele bem sabe quantas lágrimas têm me custado, mas nunca fiquei sem Seu conforto ao chamar por seu nome. Você acha que é fácil comprar moleton enquantominhas amigas preocupam-se com o material escolar de seus filhos e em passar a camisa do marido? Era essa a vida que eu imaginava aos 26. Ao contrário disso, estou solteira, de mochila nas costas, longe do altar. Mas como eu sempre repito, não há nada como confiar em Deus sem perguntas respondidas.
Com quem caminhamos é o segundo motivo importante. E esse dói mais do que você possa imaginar. Tenho tantos amigos em tantos lugares diferentes, mas não caminho ao lado de nenhum deles. Amo minha família, sei em partes o que se passa por lá, mas não estou perto. Não tenho uma melhor amiga que sabe o que aconteceu ontem e me liga perguntando se uma saidinha no shopping hoje me faria esquecer. Não tenho um namorado, um companheiro, alguém que possa me dar um beijo na testa e dizer que tudo vai ficar bem, e outro na boca, me fazendo esquecer o resto do mundo. Já não sei mais quantos anos meus irmãos têm. Não sei que número de roupa meus sobrinhos vestem. Se meus pais continuam com aqueles “dodóis”, também não. Com quem eu caminho, afinal? Sozinha num país onde meu Deus é minha única e boa companhia.
Por motivos bem diferentes do Lê, eu hoje faço a mesma pergunta. Será que vale a pena?
Não foram 26 anos improvisados. Não poderia ser a resposta também.
Quando eu souber, irei responder.
