Há 15 dias desembarquei no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre com um mix de emoções incapazes de serem descritas. Após ter vivido na Nova Zelândia, a decisão de permanecer no Brasil trazia a expectativa e também a ansiedade pelo futuro inesperado.
Não foi a primeira vez que voltei ao Brasil após ter deixado o país, mas agora a sensação era diferente – teria que me acostumar novamente, a qualquer custo, com a vida aqui. E entre se acostumar e se acomodar, existe uma linha tênue a ser trabalhada e observada por todos nós. A partir do momento em que experimentamos algo diferente, encaramos a possibilidade de deixarmos o antigo pra trás e assumirmos o novo como sendo o melhor.
Em algumas situações, isso faz-se desnecessário, ou até mesmo perigoso. Depois de 3 dias em casa, arrisquei-me assumindo o volante. Seria tudo ao contrário, já que na Nova Zelândia dirige-se do lado esquerdo da rua. E mesmo sendo motorista habilitada há quase 10 anos, quase bati o carro! Deixei morrer o motor. Liguei o pára-brisa ao invés do sinal. Andei do lado contrário da rua e só percebi ao ver o motorista vizinho aproximar-se com o rosto um tanto aflito. Foi péssimo! Mas nada que 2 ou 3 vezes (com supervidores ao meu lado) não resolvessem o drama – eu logo, logo me acostumei com o trânsito.
Foi assim também com o café com leite (nada de latte, ou flat white, ou meu adorado caramel macchiato, a lá Starbucks), com a moda, com a língua (às vezes parece tão mais fácil falar em inglês), com o posto de gasolina, e “whatever else” que você possa pensar. Nos acostumamos, mudamos, adaptamos, ou, neste caso, voltamos a ser/fazer como era antes.
É como deve ser. O que não é essencial, é adaptável. Acabamos nos amoldando a outras preferencias pessoais, sistemas e modo de fazer – nada errado nisto. Observei, entretanto, que a partir do momento que experimentamos níveis mais elevados nos padrões condizentes a essência da vida, aí precisamos ajustar nossa “velha” maneira de pensar e propor uma mudança cultural ao invés de nos acomodarmos ao antigo sistema, por nós já rejeitado após uma experiência marcante.
Nesse tempo em que estive fora do país, percebi uma preocupação com qualidade de vida por parte dos neozeolandeses muito maior do que a nossa. Prática de exercícios físicos, preferência por lanches saudáveis e bebidas naturais às industrializadas, maior tempo com a família e uma ambição por se fazer da vida o que realmente gosta me “encheram os olhos”. Destas coisas, não abro mão. Eu sei, basicamente nós, brasileiros, gostamos de ficar em frente a televisão, somos viciados em coxinha frita e refrigerante, passamos os finais de semana com os amigos ou até mesmo desconhecidos e, se não bastasse, vamos ao trabalho como quem caminha em direção a cruz! Basta! Precisamos de um novo ângulo. Precisamos olhar para todas as experiências por nós já vivenciadas e reter algo de bom para nossas vidas. Se há algo para ser mudado, mudança seja feita!
Não há nada de errado em ser como somos. Mas há erro quando vemos que mudanças (para melhor) podem ser feitas e não as fazemos. Que cada um de nós encare o novo dia através de um novo ângulo, uma nova perspectiva, e que esta nos leve a uma vida ainda melhor, a uma perfeita novidade de vida.


